Ano 2 Número 9 - out-nov/2015

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editorial mariliaCom as redes sociais, a vida real ganha registros instantâneos no meio virtual; os momentos documentados são compartilhados com muitas pessoas e o total controle sobre isso é praticamente impossível. E o que pode ser divertido e até mesmo prático, também pode ser inadequado. No caso dos médicos, a inadequação se dá, por exemplo, quando fatos sobre os pacientes são divulgados sem a devida permissão ou quando contrariam outras normativas do código de ética profissional.

A resolução 2.126/15, do Conselho Federal de Medicina (CFM), publicada no Diário Oficial da União em 1º de outubro, atualiza as regras para divulgação de assuntos médicos em entrevistas, propagandas e redes sociais. Dentre as novidades está a proibição de divulgar as populares selfies (autorretratos) e a ampliação do veto ao uso da imagem do médico, agora estendido a anúncios de produtos de qualquer natureza. O objetivo do CFM é “evitar o apelo ao sensacionalismo e à autopromoção”.

O uso das redes sociais no relacionamento médico-paciente de fato requer grande cautela. Elas podem sim, ser aliadas do atendimento à distância e do acompanhamento necessário em alguns casos, mas os limites devem ser conhecidos e respeitados.

A nós, médicos, cabe não abrir mão do bom senso. É necessário que as mesmas regras éticas existentes no atendimento no consultório sejam colocadas em prática nas redes sociais. É sempre bom lembrar que o “relacionamento virtual” deve servir ao melhor exercício da medicina, e de forma bem delimitada, e não a interesses pessoais destoantes. A autopromoção e a “consulta online” a partir da análise de imagens enviadas pelo paciente ou de simples relatos por mensagens de texto e/ou voz, por exemplo, são situações passíveis de processos éticos que podem ser movidos até mesmo pelos pacientes-alvo da “atenção remota”.

Um exemplo da falta de critério por parte de alguns médicos são as fotos em que pacientes anestesiados, no centro cirúrgico e em outras condições de suposta “vulnerabilidade”, são divulgadas nas redes sociais. Por mais que essa pessoa não seja identificada, a fotografia o expõe num momento que deveria ser privado. Além disso, a ação transmite a ideia de falta de respeito e/ou demasiada descontração, o que não condiz com o ambiente cirúrgico.

Outro fato é que as redes sociais podem favorecer ao paciente a percepção de uma relação demasiadamente informal, e isso, muitas vezes, estimula o contato a qualquer hora e por qualquer motivo. Cabe a nós promovermos essa educação informando adequadamente e deixando claras as regras.

São inquestionáveis os benefícios que a tecnologia e a internet proporcionam a toda a sociedade. Estamos vivendo uma grande revolução e precisamos aprender a gerenciar as novas formas de comunicação. É preciso discutir as aplicações na medicina com mais profundidade e amplitude, principalmente as relacionadas com a telemedicina, que, no Brasil, ainda é um recurso pouco difundido mas que, se bem empregado, pode ser de grande valia na ampliação do acesso à assistência médica de qualidade. Enquanto isso, é sempre bom lembrar que a ponderação e a prudência são as melhores aliadas nas relações virtuais – ou presenciais – entre médicos e pacientes.


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