Ano 2 Número 7 - ago-set/2015

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editorial mariliaSegundo o Ministério da Saúde (MS), a automedicação foi causa de mais de 60 mil internações no Brasil nos últimos cinco anos. O uso de medicamentos em doses além das necessárias ou por mais tempo do que o indicado, também preocupa.

Algumas sociedades médicas estão propondo medidas no intuito de modificar essa realidade. A Associação Médica Americana (AMA), por exemplo, divulgou um artigo em que trata do aumento das mortes por overdose de medicamentos – em especial, analgésicos – nos Estados Unidos. A questão dos opioides também é considerada, uma vez que são responsáveis pelo óbito de 44 pessoas por dia naquele país. Em busca de uma solução, um programa nacional de conscientização foi desenvolvido pela AMA em conjunto com a Associação Americana de Osteopatia (AOA, em inglês) e a Associação Americana de Odontologia (ADA, em inglês).

Para que esses problemas, e também as iatrogenias, possam ser minimizados é necessário mais do que a prescrição correta, específica. Faz-se essencial o acompanhamento atento, contínuo, de modo que o médico possa efetivamente ajudar a minimizar os riscos de excessos e de dependência. O cuidado deve incluir até mesmo atenção na hora de prescrever drogas cuja apresentação no mercado não atenda aos critérios do tratamento, o que favorece a sobra da medicação em poder do paciente. Uma solução seria o agendamento de consultas em menor espaço de tempo, com o objetivo de reavaliar a estratégia terapêutica, a condição clínica do paciente e conscientizá-lo acerca dos riscos da não adesão correta ao procedimento proposto.

O Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade, que aconteceu entre os dias 8 de 12 de julho deste ano, abordou outra possível solução para o problema do uso prolongado de medicamentos: a desprescrição, que consiste na interrupção ou na redução de doses visando ao alívio dos efeitos colaterais. A proposta apresentada indica que a desprescrição seja feita pelo médico de família, em função da maior possibilidade de contato frequente desse profissional com o paciente. Mas é preciso cautela neste processo. Os profissionais envolvidos precisam ter controle e ser atualizados frequentemente sobre a condição clínica da pessoa atendida. E mais: o diálogo entre o médico que receitou o medicamento e o que indica a interrupção é também de fundamental importância, de modo a evitar conflitos éticos e prejuízos à saúde das pessoas assistidas.

A despeito de possíveis pontos polêmicos, o essencial, nos dois casos é, efetivamente, o cuidado com o paciente. No momento da consulta, devemos alertá-lo sobre os perigos de se automedicar, mesmo no caso de medicamentos considerados “simples”, de acesso irrestrito nas farmácias, sem a necessidade de receita médica. Poucos leigos sabem, por exemplo, que uma das drogas mais utilizadas no combate à dor de cabeça, o paracetamol, pode sobrecarregar o fígado e causar distúrbios no sistema renal, consequências do efeito cumulativo devido às pequenas overdoses ao longo do tempo.

Ao se colocar o paciente em primeiro lugar e dar atenção às suas necessidades, é possível diminuir os problemas com medicações e fazer dos medicamentos apenas o que eles devem ser: aliados de quem os prescreve e de quem necessita deles.


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